por Jornal O Tempo
Postado em 22 de Junho de 2026 às 09:00 hrs
Entrevista com o CEO da empresa Ricardo Lima:
Com investimentos bilionários em inovação, descarbonização e expansão internacional, a CBMM projeta crescer 10% em vendas e preparar os próximos passos de sua expansão global.
“Dos R$ 11 bilhões de investimentos planejados (até 2030), metade será para aumentar a capacidade na linha de produtos”, explica.
Nós temos tido um crescimento bastante interessante do nosso volume de vendas. Nossa principal atividade hoje é destinada à indústria siderúrgica, que há muitos anos tem um patamar estável globalmente, com uma produção de cerca de 2 bilhões de toneladas de aço por ano. O que temos feito, de maneira bastante intensa, é ver como nós, através da tecnologia do nióbio, ajudamos os nossos clientes a resolver os seus principais problemas, que é o que chamamos internamente de “inserção”.
O que é a inserção?
É uma nova aplicação para produtos de nióbio que desenvolvemos no mercado, seja em indústrias tradicionais, em que nós já atuamos há décadas, ou em novas, como as indústrias de linha óptica, química, eletrônica, aeroespacial e de baterias. Nosso principal desafio é desenvolver e crescer o mercado.
O setor de aço das siderúrgicas detém cerca de 75% do volume de produtos de nióbio que são produzidos. Dá para a gente fazer um cálculo do porquê de estar havendo essa procura tão grande das siderúrgicas e por que estão performando melhor? Os resultados são mais vantajosos do que se estivessem sem o nióbio no aço?
O nióbio ajuda. Se nós pensarmos na CBMM desde quando ela foi fundada, a companhia completou 70 anos no ano passado, tendo sido fundada em 1955. Desde o primeiro dia, a CBMM se dedicou a fazer pesquisa e desenvolvimento para ver onde o nióbio pode ser aplicado. A indústria siderúrgica foi a primeira a criar o mercado para diferentes tipos de aço. Os primeiros foram aços para gasodutos e oleodutos; depois, para o aço inoxidável, para a indústria automotiva e, mais recentemente, para a construção civil. Hoje, as grandes empresas já conhecem os efeitos do nióbio e as vantagens que ele traz para as propriedades do aço.
Como está a operação em Araxá, Minas Gerais, que é onde a CBMM concentra toda a sua produção?
Nós temos hoje uma estratégia muito focada no crescimento do mercado de nióbio no mundo. Conseguimos nos últimos anos ter um crescimento de pelo menos 5% ao ano no nosso volume de vendas. Este ano eu estou mais otimista: nós devemos crescer 10%. Eu arriscaria dizer para você, hoje que nós temos já no nosso planejamento de vendas uma consistência para dizer que podemos crescer 10% em relação ao ano passado. É o ano em que estamos tendo mais sucesso porque todas as ações que começamos alguns anos atrás estão chegando a um nível de maturidade, e o mercado está sendo receptivo a isso. Durante a pandemia nós terminamos um ciclo importante de investimento, no qual aumentamos a capacidade de produção de ferronióbio de 100 mil toneladas por ano para 150 mil toneladas por ano.
Foi uma aposta enorme, não foi? E essa indústria funciona assim: preencher essa capacidade toda não é fácil.
Este ano nós já estamos em um ritmo de produzir cerca de 120 mil a 125 mil toneladas. Já temos projetos e estamos avaliando os próximos passos de crescimento.
Em quanto tempo você pretende atingir essa capacidade total instalada?
Espero que até 2030 nós estejamos já com volumes de vendas entre 140 mil e 150 mil toneladas. Como grande líder global em produtos de nióbio, a CBMM tem a clara responsabilidade de não deixar faltar material em nenhum lugar do mundo para nenhum cliente do nosso portfólio. Um dos pilares da estratégia que temos há 70 anos é investirmos em capacidade à frente da demanda. Dos R$ 11 bilhões de investimento planejado, metade será para aumentar a capacidade na linha dos produtos.
Está havendo um aumento da capacidade para outros tipos de produtos no portfólio?
Em quanto tempo você pretende atingir essa capacidade total instalada?
Espero que até 2030 nós estejamos já com volumes de vendas entre 140 mil e 150 mil toneladas. Como grande líder global em produtos de nióbio, a CBMM tem a clara responsabilidade de não deixar faltar material em nenhum lugar do mundo para nenhum cliente do nosso portfólio. Um dos pilares da estratégia que temos há 70 anos é investirmos em capacidade à frente da demanda. Dos R$ 11 bilhões de investimento planejado, metade será para aumentar a capacidade na linha dos produtos.
Está havendo um aumento da capacidade para outros tipos de produtos no portfólio?
Você falou que espera atingir a capacidade instalada de 150 mil toneladas de ferronióbio até 2030. A partir daí, você vai dizer para os acionistas que é preciso fazer mais investimentos para aumentar a capacidade ou a CBMM quer chegar a esse limite, e não ultrapassá-lo?
Nós já estamos discutindo isso. Eu não posso deixar para discutir isso em 2030, senão não dá tempo. Eu tenho uma necessidade de cerca de três anos entre maturar o projeto e realizá-lo. Já estamos discutindo internamente no nível executivo, junto com os nossos times, quais são os diferentes cenários e o que me dá base para sugerir ao acionista e ao conselho o que será a CBMM após 2030. Até 2030 nós estamos bastante alinhados e já fizemos os investimentos principais. Agora estamos montando cenários porque preciso ver o que o mundo vai demandar após 2030 e quais são as tendências.
Dá para saber as tendências?
Dá. Não temos bola de cristal, mas nós temos uma área de estratégia hoje com várias pessoas que se dedicam a ler relatórios, cruzar informações e falar com especialistas no mundo todo. Nós vamos construindo esses cenários com o nosso conhecimento interno de onde o nióbio pode ajudar. Criamos uma área de inovação. Estou separando o que é pesquisa e desenvolvimento do que é a inovação agora. Nós podemos investir em uma startup que já tem um conhecimento ou estabelecer contato com um professor ou empresa em determinado lugar. Essa área de inovação tem o desafio de buscar no mercado o que já está sendo estudado, porque muita gente estuda o nióbio sem estar conosco. Nós temos um comitê de tecnologia na CBMM que é uma parceria entre o nível executivo e alguns membros do conselho que possuem qualificação técnica profunda e conhecimento da indústria e do processo. Ali nós discutimos e decidimos em qual projeto apostar.
A empresa só cresce: Ebtida de mais de R$ 10 bilhões, alta de 9% em 2025 ante 2024, receita líquida de mais de R$ 14 bilhões, lucro líquido de mais de R$ 6 bilhões. O que esperar do ano de 2026 em termos de resultados?
Nós esperamos crescer cerca de 10% no volume de vendas este ano. Na linha do custo de produção, enfrentamos uma pressão mais alta em função do cenário geopolítico. O alumínio é um dos nossos principais insumos, e o seu preço está muito mais elevado em comparação ao ano passado. Isso pressiona os custos e exige mais eficiência da nossa parte. Este ano está sendo muito desafiador no sentido de buscar mitigar o efeito da alta dos insumos por meio da eficiência operacional. Também temos o impacto do câmbio ao consolidar os resultados em reais. Como somos uma companhia exportadora, temos boa parte da nossa receita em dólares.
Atualmente, são quantos funcionários?
Estamos com 2.100 funcionários. Aumentou. Sempre estivemos na casa dos 2.000, mas tivemos que contratar mais pessoas para a operação em Araxá para acompanhar o aumento do volume de produção. Estamos aumentando a intensidade das operações e os turnos nas diferentes plantas para fazer frente ao volume de vendas.
Vocês estão operando em três turnos?
Estamos trabalhando praticamente de forma contínua. Em paralelo, temos as obras caminhando. São muitos desafios, porque, além de atender a volumes de produção inéditos para nós, temos um grande canteiro de obras ativo. O nosso time em Araxá está muito atento para gerenciar tudo isso com sucesso. No pico das obras, chegaremos a ter 5.000 funcionários terceirizados trabalhando. É um volume expressivo, por isso temos profissionais 100% dedicados a acompanhar o dia a dia, checar procedimentos e elevar o nível de treinamento junto aos fornecedores, que têm correspondido muito bem às nossas exigências.
Quero falar também sobre a arrecadação de impostos. A receita gerada pela CBMM resulta em um volume bilionário de tributos federais, estaduais e municipais. Isso sem contar o que a empresa paga ao estado pela lavra, em função da parceria com a Codemig. Qual é o impacto desse crescimento na contribuição tributária?
Isso faz parte da dinâmica do negócio. À medida que a CBMM cresce, com o aumento da nossa receita e dos nossos resultados, consequentemente pagamos mais impostos. Vejo isso de forma extremamente positiva. Se a empresa cresce, ela contribui mais com impostos e repassa mais recursos na parceria com a Codemig. Isso é benéfico para o estado, para a CBMM e para a cidade de Araxá. É uma operação muito saudável de uma empresa financeiramente sólida, o que traz impactos positivos diretos para as comunidades. Ao estado, o repasse foi de R$ 1,9 bilhão (em 2025), um recurso muito importante para os cofres públicos. Independentemente disso, a CBMM realiza diversos projetos sociais em Araxá. A empresa não se limita à visão de que cumprir a obrigação dos impostos é o bastante; há uma atuação forte no município. Essa relação com Araxá sempre existiu ao longo do crescimento da cidade e da companhia, baseada no princípio do ganha-ganha. Hoje temos uma comissão que avalia projetos com o objetivo de ajudar a criar uma Araxá autossustentável. A comissão avalia caso a caso. O foco são crianças e adolescentes, com projetos voltados à educação e à cultura, preferencialmente em Araxá.
São quantas pessoas impactadas?
No ano passado, somando projetos incentivados e não incentivados, destinamos R$ 42 milhões a iniciativas de impacto social. Esses projetos atingiram 1 milhão de pessoas, sendo 70% das ações desenvolvidas em Araxá. Também atuamos fora seguindo a prioridade: Araxá, Minas Gerais e Brasil. Queremos mudar a vida das pessoas para que elas tenham autonomia e não dependam exclusivamente de uma vaga na CBMM; elas podem, inclusive, se capacitar para ser futuras fornecedoras da empresa. Buscamos migrar de uma cultura assistencialista para o desenvolvimento de comunidades autossustentáveis.
Quais projetos se destacam nessa linha de autossustentabilidade?
Nós temos um projeto, chamado “Vai que Dá, Araxá”. Nós selecionamos dez projetos por ano apresentados por pessoas da comunidade, sem necessidade de vínculo com a CBMM – são pessoas que produzem doces, sabonetes, entre outros. Muitas vezes elas têm ótimas ideias e aptidão, mas não sabem como estruturar e gerir um negócio. A CBMM entra com o aporte de capital inicial, mas entendemos que, se déssemos apenas o dinheiro, sem o preparo adequado, a ideia poderia morrer. Por isso, além do capital, oferecemos durante um ano o acompanhamento de uma consultoria em técnicas de gestão para transformar aquela ideia em um negócio de sucesso.