Blog do Zé Antônio

Jornalista, radialista e apresentador de TV

Cidade mineira sofreu blackout para que pista fosse iluminada durante pouso às cegas

por G1

Postado em 13 de Outubro de 2025 às 09:00 hrs


Enquanto pai e filho enfrentavam uma tempestade na tarde de 15 de maio de 1983, a bordo de um monomotor Embraer EMB-712 "Tupi", Araxá sofreu um blackout para que apenas as luzes dos faróis dos 200 veículos que iluminavam a pista de pouso se destacassem vistas do céu.

Para que o pouso seguido de alívio ocorresse, uma grande mobilização ocorreu para que as luzes fossem apagadas. Segundo o radialista da Rádio Imbiara à época, Paulo César, o prefeito interveio para que o blackout ocorresse.

“Tentamos contato com os responsáveis pela Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), mas não conseguimos. Em seguida, falamos com o prefeito, que conseguiu falar com um dos coordenadores da empresa para autorizar o blackout”, contou.

Quando as luzes de parte da cidade se apagaram e a pista do Aeroporto Municipal iluminada pelos carros foi vista, o militar da aeronáutica José Maria Humberto Rosa, que pilotava a aeronave, e seu filho Marcello Rosa, não pensaram muito, era o momento de apontar o monomotor para aquele espaço e pousar.

Em terra, os presentes viram o avião tocar a pista do aeroporto em alta velocidade, varando a pista e parando no mato. Ao sair do avião, o piloto foi saudado pela multidão, que o jogava para cima celebrando o difícil feito. Atrás seguia Marcello, aliviado.

Naquele dia, há mais de 40 anos, José Humberto foi convidado por amigos para buscar um avião em Caldas Novas. Ele atuava no controle de tráfego aéreo no Aeroporto de Uberlândia.

Segundo Marcello, convites para tais voos eram comuns.

Após pegarem o avião, os amigos retornaram para Uberlândia, seguidos de José e Marcelo. Devido à diferença de velocidade entre os aviões, um bimotor e um monomotor, pai e filho ficaram para trás.

Para piorar, no caminho estava uma tempestade que atingiu diversas cidades do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba naquele dia. As nuvens estavam densas, escuras, cheia de raios e trovões, além de muita água.

José se lembra de tentar desviar do temporal manobrando a aeronave para contorná-lo. No entanto, as nuvens engoliram o monomotor. Com a visão prejudicada, pai e filho não conseguiam ver mais Uberlândia.

Quando uma brecha nas nuvens surgiu, José Humberto e Marcello avistaram uma cidade com poucos prédios abaixo e os dois desconfiaram que não estavam mais sobrevoando o destino que pretendiam.

Foram quase duas horas sobrevoando a cidade, até que em meio às nuvens carregadas, Marcelo viu de longe a palavra “Zema” destacada em um dos prédios. Foi nesse momento que pai e filho se deram conta de que estavam em Araxá, cidade a 175 quilômetros de Uberlândia.

Em terra, os moradores de Araxá estavam assustados com o avião voando baixo. À época com 21 anos, o radialista Paulo César lembra que estava no Centro quando a tempestade fez o céu escurecer. Pouco depois, recebeu um chamado do chefe na Rádio Imbiara, José Deusdeti de Resende, que tinha avistado o avião sobrevoando a cidade e estava preocupado.

Ao entrar ao vivo, Paulo repetia incansavelmente mensagens que indicassem onde o piloto da aeronave estava e, ao mesmo tempo, tentava guiá-los para o aeroporto da cidade. No entanto, nenhum contato foi feito oficialmente entre a rádio e José.

“Atenção, proprietários de veículos: favor se dirigir ao Aeroporto Municipal para auxiliar na tentativa de salvar uma aeronave que está tentando pousar na cidade.”

No entanto, para que o plano funcionasse e o piloto enxergasse a pista iluminada pelos carros era necessário que a energia na região do aeroporto fosse cortada.

“Quando anoiteceu tínhamos apenas 15 minutos de combustível. Eu tentava me manter tranquilo e já havia definido um local que usaria para um pouso de emergência. Foi então que a cidade se apagou e eu consegui ver uma luz”, relembrou José.

A luz vista era, na verdade, os faróis de quase 200 carros posicionados para iluminar a pista de pouso. Sem tempo para pensar, José, com a ajuda de Marcelo, direcionaram a aeronave para o pouso.

Quando o trem de pouso do monomotor tocou o chão, a velocidade era tanta que o avião saiu da pista. O piloto e o filho, porém, não se feriram.

Ao sair da aeronave, vestido dos pés à cabeça com o uniforme da Aeronáutica, José Humberto foi recebido pelos moradores que ignoraram a chuva. Em comemoração, ele foi carregado e lançado para o alto.

Marcelo seguiu logo atrás, correndo atrás da multidão e, mesmo perdendo o dia de trabalho, estava aliviado por pisar em terra firme.

“Naquela época, o caso não teve grande repercussão, mas é uma história que todo mundo deveria conhecer. Quem entende um pouco de aviação e ouve quando contamos, costuma dizer apenas uma coisa: a gente só vai quando chega a hora", afirmou Marcelo.

José Humberto, a esposa Maria José e os filhos Erika e Mark — Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

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